REFLEXÃO SOBRE BLOGS DE MODA

janeiro 27, 2012 Thayanna Sena 2 Comentários

Estudei Jornalismo por quatro anos, passei por disciplinas que não eram do meu agrado e aguentei entrevistados monossilábicos em matérias cujos temas me faziam pensar: quê que eu tô fazendo aqui

Me formei (ou quase) a duras penas no anseio de atuar como jornalista de Moda. Só que, quando cheguei ao fim do curso, descobri que a forma de se produzir informação sobre isso havia mudado. Os blogs, maiores fontes de conteúdo fashion na atualidade, são alimentados por estudantes do ensino médio, fashion victims (control c control v da Moda), filhas de empresários do setor, aspirantes à celebridade, tudo, menos jornalistas_ salvo raras exceções.

A nova classe de escritores tem produzido muito conteúdo baseado em marketing, às vezes sem nem saber o que isso significa. Parcerias e sorteios fazem dos blogs fonte de lucro para empresas do setor de vestuário e as blogueiras se tornam garotas-propaganda. Chanel (a marca, não a Coco) hoje em dia é metade o que ela é (ícone de qualidade e classe) e metade o que falam dela. 

Não ousaria criticar os novos escritores por “democratizar” a Moda. Eu realmente gosto do fato da Moda ter descido do salto de as pessoas comuns terem subido no salto alto e o que possibilitou essa ascensão da elegância foi a internet. O meu lamento se deve aos textos simplistas que tenho lido nos fashion blogs. Faltam entrevistas, esclarecimentos sobre termos que nem todo mundo conhece (por que usar “burgundy” ao invés de “borgonha”? Por que não explicar ao menos que se trata da mesma cor?). Falta diferenciação, referências (de onde vem a inspiração para a tendência do próximo inverno?). Falta conteúdo, apuração das informações.

Os digitadores de texto fashion não aprenderam as lições de Jornalismo, a ética e o lead_ por que até mesmo pra quebrar as regras e fazer diferente, é preciso conhecer o modelo clássico. Os editoriais fotográficos ficaram simples e raros. A rua virou passarela e a alta costura, o novo pronto-para-vestir (prêt-à porter, read-to-wear, conheço as expressões, mas pra quê?). E é nesse ponto que a democracia dos blogs se perde, por que o preço das grifes não acompanhou a popularização e elas continuam restritas. E se uma das características dos blogs de moda é ostentar a marca que se usa, qual a propabilidade de ascensão de uma pessoa comum? 

Não sou radical. Precisamos acompanhar as mudanças e reconhecer os benefícios delas. Fico emocionada (de encher os olhos d’água), por exemplo, ao ver a criatividade das pessoas em campanhas como a dos 100 anos de Moda ou a série de vídeos EAT, LEARN, MOVE, de Rick Mereki. Ou blogs que fazem intercâmbio entre assuntos diversos, como design, gastronomia, moda, lifestyle e tecnologia. Ou melhor: as excelentes e criativas críticas á tudo isso (vide o Todo dia um look, que eu adoro!). 

O que me pergunto é o que é Moda hoje em dia. O que estamos fazendo com os séculos da História do Vestuário, com os grandes designers, com o brilho das pesquisas que fazem surgir as coleções. Me pergunto até quando Moda será vista como modismo, principalmente pela parcela da população “não tão antenada”. É uma discussão longa. Uma questão de reflexão. Um objeto de estudo.

Por que o meu desejo de ser jornalista de Moda continua vivo, mas a Moda com a qual eu sonho não se resume ao look do dia.

2 comentários:

  1. Thay, você conseguiu sintetizar nesse texto muito do que eu penso a respeito de moda. Virou moda ter "blog de moda", entre aspas porque pra mim, moda vai muito além de looks do dia e tendências, coisa que a gente mais vê em blogs do gênero. O que me deixa feliz é que, como boa frequentadora de blogs, conheço muita gente boa produzindo conteúdos realmente interessantes, mas sério, me deprimo com tanto lixo, futilidade e analfabetismo que têm surgido a cada dia nessa tal "blogosfera". É assustador.

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  2. Posso reproduzir esse post lá no thc? Beijos.

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