Quando o amor chega*

By Thayanna Sena - maio 29, 2015

*Tradução adaptada do poema "When love arrives" de Sarah Kay & Phil Kaye


Eu sabia exatamente como era o amor na sétima série. Mesmo que eu não tivesse o encontrado ainda, se ele aparecesse na minha sala de aula, eu o teria reconhecido no primeiro olhar. O amor usava um colar de corda.
Eu a teria reconhecido no primeiro olhar. O amor usava uma trança embutida.
O amor tocava violão e sabia todas as minhas músicas favoritas dos Beatles. O amor não tinha medo de andar de ônibus comigo.
Eu sabia! Eu devia estar procurando na sala errada. Devia estar olhando no corredor errado. Ele estava ali, eu tinha certeza disso! Se eu pudesse achá-lo...

Mas quando ela se mostrou... ela tinha o cabelo de cuia.
Ele usava as mesmas roupas todos os dias por uma semana!
O amor detestava ônibus. O amor nada sabia sobre os Beatles. Pelo contrário.
Toda vez que tentávamos nos beijar, nossos dentes ficavam no caminho. O amor virou a razão para mentir para os meus pais: "Eu estou indo para... a casa do Ben". O amor não tinha ritmo na pista de dança, mas garantia que nunca perdessemos as músicas lentas. O amor esperava do lado do telefone, porque sabia que se seu pai atendesse, seria assim:
-Alô?
-(respiração pesada)
-Alô?
-(respiração pesada)
-Acho que desligaram...

E o amor cresceu. Expandiu-se, como um trampolim. O amor mudou e desapareceu. Vagarosamente, como dentes de leite, levando partes de mim que achava necessárias. O amor sumiu como um mágico amador: todos podiam ver o truque, menos eu.
Como um pneu murcho, eu planejava ir para outros lugares, mas meus planos não importavam. O amor ficou fora por anos e, quando reapareceu, eu mal podia reconhecê-lo. O amor tinha um cheiro diferente agora, olhos mais escuros, costas mais largas. O amor veio com sardas que eu não reconhecia. Novas marcas de nascença, uma voz mais doce. Agora existiam novos padrões de sono, novos livros favoritos. O amor tinha músicas que o lembravam de outra pessoa, músicas que ele não ouvia, assim com eu.

Mas encontramos um banco no parque que nos cabia perfeitamente. Achamos piadas que nos faziam rir. E agora o amor me faz cookies com gotas de chocolate mas, em geral, acaba com a maior parte deles, num lanchinho de madrugada.
O amor fica lindo de lingerie, mas ainda usa seu aparelho odontológico.
O amor é péssimo dirigindo, mas é um ótimo navegador.
O amor sabe onde está indo, mas talvez ela leve duas horas além do planejado.
O amor é mais bagunçado agora, não tão simples. O amor usa a palavra "peitos" na frente dos meus pais. O amor mastiga alto. O amor não tampa a pasta de dente. O amor usa carinhas nas mensagens de textos e, no fim, o amor é uma merda.

Mas o amor também chora, e diz que você é linda, de verdade, de novo e de novo.
"Você é linda", quando você acorda pela primeira vez.
"Você é linda", quando você acabou de chorar.
"Você é linda", quando você não quer ouvir.
"Você é linda", quando você não acredita.
"Você é linda", quando ninguém mais te diria.
"Você é linda". O amor ainda acha que você é linda, mas o amor não é perfeito, e vai esquecer, quando você mais precisar escutar. Você é linda, não esqueça disso!

O amor não é quem você esperava. O amor não é previsível. Talvez ele esteja em Nova York, dormindo, e você esteja na Califórnia ou Austrália, bem acordado. Talvez o amor esteja sempre no fuso horário errado. Talvez o amor não esteja pronto para você. Talvez você não esteja pronto para o amor. Talvez o amor só não seja um "tipo para casar". Talvez, quando você vir o amor da próxima vez, seja 20 anos após o divórcio_ ele parece mais velho, mas tão lindo quanto você lembrava. Talvez ele só fique por um mês. Talvez esteja lá para cada fogo de artifício, cada festa de aniversário, cada visita no hospital.

Talvez ele fique. Talvez não possa. Talvez não deva.
O amor chega exatamente quando deveria e vai exatamente quando tem que ir. Quando ele chegar, diga: "Bem-vindo, fique à vontade". Se ele for embora, peça-o que deixe a porta aberta quando sair. Desligue a música, escute o silêncio. Sussurre: "Obrigada por passar por aqui".

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